segunda-feira, 10 de março de 2014

True Detective: estamos todos em Carcosa agora?

Atenção: SPOILERS de todos os episódios, inclusive do último. Se ainda não assistiu a toda a série, leia por sua conta e risco.

A série

True Detective mobilizou milhares, talvez milhões de fãs na internet, compartilhando e criando teorias, unindo peças sutis, detalhes quase imperceptíveis e grandes sacadas para desvendar o mistério dos assassinatos e estupros ritualísticos cometidos na Louisiana de 1995. Poucas vezes se viu, na televisão, uma série tão adulta e pessimista, aliando alta qualidade de texto, interpretações e cinematografia.
Criada pelo escritor e roteirista Nic Pizzolato (também responsável por dois episódios de The Killing) e dirigida por Cary Joy Fukunaga (Jane Eyre), True Detective pretende ser uma antologia de histórias. Cada temporada apresentará uma trama diferente, com personagens e cenários distintos. Nesta primeira encarnação, Pizzolato explora o sul da Louisiana, sua terra natal, e nos oferece uma terra em que a civilização e a selvageria não apenas convivem, mas é quase impossível dizer onde uma termina e começa a outra. O homem é o mais cruel dos animais, já dizia o pôster de True Detective.

Narrativa

Há três linhas temporais: 1995, 2002 e 2013. O texto demonstra habilmente como os acontecimentos em um momento influenciaram os rumos da história e dos personagens até os dias de hoje. Tudo é relativamente sutil, e exige bastante atenção do espectador. O que faz a união entre os diferentes tempos são os entrevistas da polícia com dois ex-detetives, Marty (Woody Harrelson) e Rust Cohle (Matthew McConaughey), os responsáveis pela investigação dos crimes cometidos em 1995.
Aos poucos, o espectador descobre o que afastou os dois homens, o rumo das investigações e o mais importante: que eles não dizem toda a verdade. O que eles estão fazendo é, em resumo, contar suas versões da história. Como bem notou Ana Maria Bahiana, True Detective é também sobre a arte de narrar. Há mil histórias possíveis na série, como se Sherazade estivesse nos entretendo com um único grande e detalhado conto sobre violência, degradação e desesperança de uma forma tão verdadeira que é impossível parar de ouvir sua voz.
Quem esperava de True Detective a união de todas as pistas na direção de uma única explicação integrada e redentora pode se decepcionar. Pizzolato dispôs uma quantidade absurda de peças, escondidas em tatuagens no pescoço de um personagem, o quadro ou a foto na parede da casa de outro, uma única fala que parece gratuita mas que ecoa em acontecimentos mostrados dois ou três episódios depois. A série abasteceu os fãs com toneladas de possíveis red herrings e muitos sequer foram explorados. Por quê?
Em primeiro lugar, a série acompanha os pontos de vista de apenas três personagens: Rust, Marty e sua mulher, Maggie (Michelle Monaghan). Ou seja, é um recorte de uma realidade maior. As conexões dos crimes escabrosos investigados pelos dois detetives são amplas demais, grandes demais para que eles consigam reconstruir. Além disso, ao contrário de obras mais convencionais, em que um ou dois detetives desvendam e desmontam esquemas grandiosos de crimes, aqui uma boa dose de realidade se faz presente, expressa na fala de Marty ao final, quando Rust lamenta não terem pego todos os envolvidos: “Mas pegamos o nosso homem”. Logo, há tanto elementos que eles não conseguem relacionar (seja porque o foco da investigação era mais simples e urgente, seja porque, afinal, não tiveram tempo) quanto outros que apenas o espectador percebe e que, muito provavelmente, fazem parte da trama.
Por exemplo: os desenhos de cunho sexual feitos por Audrey, filha de Marty, a sua transformação em uma adolescente problemática e posterior artista adulta (um de seus supostos quadros tem estrelas negras e espirais, elementos recorrentes da série) que mantém a sanidade a base de medicamentos, revelação feita por Maggie ao seu pai. Junte-se a isso o círculo de bonecas feito por ela, reproduzindo o estupro ritual e grupal praticado pelos pedófilos do grupo, e (outra vez) Maggie revelando que o marido se encontrou na igreja, por algum tempo. Haveria ligação entre o culto ao Rei Amarelo, a igreja que Marty frequentou e as estranhas reações de sua filha? Espertamente, Pizzolato jamais responde a pergunta, deixa que ela fomente a mitologia da série.

Carcosa e o Rei Amarelo

Falando em mitologia, True Detective chamou a atenção da comunidade de fãs de literatura fantástica pela relação com o livro The King in Yellow, de Robert W. Chambers, como notado no já famoso artigo do io9. A cidade mítica de Carcosa, as estrelas negras, o Rei Amarelo e a revelação da natureza incompreensível e enlouquecedora do universo são citados várias vezes. Curiosamente, o livro The King in Yellow jamais é mencionado. É como se True Detective se passasse em um universo em que esta obra não existe (é natural supor que Rust, com sua erudição e interesse pela natureza humana, a conhecesse, mas ele não fala nela). Na verdade, talvez seja algo ainda pior: a série se passa num mundo em que homens equilibrados e influentes acreditam em horrores que envolvem o sacrifício e o estupro de crianças e mulheres sob a desculpa de uma suposta força superior. Quando Rust e Marty finalmente encontram Reggie Ledoux, um dos assassinos e membro da seita, ele diz a Rust: “Você está em Carcosa agora”.
Note-se também que o amarelo é uma cor tradicionalmente relacionada a decadência, a deterioração. Várias vezes, especialmente quando Rust é enquadrado, a palheta de cores aproxima-se bastante do amarelo, do ocre, dando a várias sequências uma aparência de degradação. Em determinado momento, o próprio Cole diz que “sua vida foi apenas degradação e violência. Estou pronto para dar um fim a isso”.

Personagens

A grande estrela de True Detective são seus dois protagonistas, Marty e Rust, ambos interpretados com maestria por Woody Harrelson e Matthew McConaughey.
Marty é um policial conservador, casado e pai de duas filhas, que deixa sua inteligência e energia serem dragados por casos extraconjugais que lhe custarão muito caro. Se Rust age e vive conforme sua visão bastante particular do mundo e da humanidade, Marty prega uma coisa e faz outra. Não sabe lidar com sua filha adolescente e tende a resolver seus conflitos de forma violenta (atira em Ledoux por impulso e espanca metodicamente os dois jovens flagrados com Audrey).
Rust é um niilista, pessimista e ateu convicto, perdido em um sul norte-americano cristão. Despreza a humanidade (“um erro da evolução movido a ilusão de consciência e individualidade”) e o universo (“um sistema fechado em que tudo se repete infinitas vezes; você morre, apenas para renascer na mesma vida e repeti-la novamente”). Inicialmente reservado, faz de Marty o depositário de sua visão aterrorizante de mundo.
É a relação e a evolução dos dois o grande arco de True Detective, e isso é mais importante do que a trama. Eles só serão íntegros, só serão homens realizados ao abraçar a obsessão de resolver os crimes de 1995. Ambos mentiram para si mesmos, viveram a ilusão de ter encerrado o ciclo de assassinatos. O momento em que o que realmente aconteceu no esconderijo de Ledoux e o que eles contam a polícia é um dos pontos altos da série. Eles são aclamados heróis e vivem vidas boas e felizes por algum tempo. Mas, aqui, a felicidade é uma ilusão. Marty tem de lidar com a desintegração de seu casamento e de sua relação com a filha. E Rust é novamente atraído para o caso (é emblemática a cena em que ele se aproxima de uma espiral de gravetos no tronco de uma árvore, como se o estivesse chamando), o que o leva a sair da polícia definitivamente. Lançados de volta ao vazio, eles se reúnem em 2013 e seguem as pistas colecionadas por Rust até a família de Tuttle e o “homem com cara de espaguete”. Agora focado no caso, é Marty quem acaba fazendo a conexão necessária para descobri-lo.
Ainda temos Maggie, a mulher de Marty, que, muitas vezes, faz o papel do espectador, tecendo observações pertinentes sobre seu marido e Rust (por quem, desconfio, tinha certa queda, correspondida secretamente). “Rust é um homem decente.”, ela diz. “Ele sempre soube exatamente quem era. Ao contrário de Marty, que jamais descobriu quem realmente é”.

O final (feliz?)

Diante de tanta expectativa e teorias (algumas completamente alucinadas) dos fãs, o final, exibido no dia 09 de março, dividiu opiniões. Em parte, confesso, esperava mais. Talvez mais detalhes, uma maior explicação da “grande conspiração”. Mas eu descobri que estava pensando de forma equivocada, havia sido enganado pela expectativa padrão que criamos sobre toda história de detetives: a solução do crime. True Detective, como eu já disse antes, concentra-se no ponto de vista e nas pistas limitadas seguidas por dois personagens. O resto é a mitologia da série. O final não poderia ser mais simples e direto, como deve ser uma destas histórias. Foi intenso e, em alguns momentos, perturbador – de um jeito um tanto errado.
Concordo com o io9, que cita como ponto fraco a criação de um vilão óbvio para encerrar a trama. O white trash Errol em sua casa decrépita, com o pai morto acorrentado na cama, e mantendo relações sexuais com sua tia obesa e de intelecto aparentemente limitado parecia uma mistura de Seven e O Massacre da Serra Elétrica com o mais grotesco episódio de série de TV já feito: o Arquivo X dos irmãos deformados que escondiam a mãe amputada debaixo da cama e mantinham... ok, você já entendeu. Foi uma concessão um tanto óbvia ao desejo do espectador em ver o mal em toda a sua horripilante natureza. True Detective não precisava disso. Já havíamos sido expostos a toda forma de mal, de formas sutis ou explícitas, e Errol acabou parecendo uma caricatura, quase um exagero. Mas há algumas coisas que merecem ser mencionadas e que podem explicá-lo.
A casa dele tem pilhas de livros. Seu vocabulário e construções gramaticais são ricos e articulados. Errol é cruel e inteligente (“ele é o pior de todos”, diz sua tia para Marty), fazendo-se de tolo para se aproximar das crianças que sacrifica e violenta. Por outro lado, é o elo mais fraco da corrente, fruto das maquinações dos poderosos Tuttle. Se Errol é uma caricatura do mal, ele é assim porque é pouco mais do que um “boi de piranha”, o monstro que nós identificamos com facilidade enquanto os maiores vilões estão escondidos por trás de reputações, poder, igrejas e influência.
Se Rust e Marty, apesar de todos os indícios em contrário, sobrevivem, é uma surpresa agradável, afinal, gostamos deles. Rust, na cadeira de rodas, diz que no fundo, tudo tratou-se da mais antiga das histórias, “da luz e das trevas”. Quando Marty diz que olhando o céu, parece-lhe que há mais trevas, Rust replica, dizendo que, do seu ponto de vista, significa que a luz ainda prevalece. Ambos caminham para fora do hospital e parecem, mais do que nunca, dois amigos de longa data. É um final feliz, certo? Até certo ponto sim, mas não tenho tanta certeza, pois nada em True Detective é tão simples.
Eles pegaram apenas um assassino (“pelo menos pegamos o nosso homem”). Tuttle e outros, tão ou mais poderosos do que ele, continuarão matando. Provavelmente pararão por algum tempo, deixarão a poeira baixar, mas logo contarão novamente com a impunidade e a estrutura que criaram para prosseguir com seu culto bizarro. Além disso, a cena que mais incomodou os fãs, a suposta negação de Rust a suas ideias niilistas, não é bem assim. Quando próximo da morte, ele diz ter sentido estar caindo em um lugar quente, onde só havia o amor de sua filha, morta em um acidente de carro, lá, esperando por ele. “Eu não deveria estar aqui, cara”, ele diz. Rust gostaria de ter morrido. Quase morto, ele sentiu novamente a ilusão da individualidade e da conexão com um significado superior. Não é que Rust tenha recuperado uma suposta espiritualidade perdida, mas ele gostaria de ter morrido imerso nesta ilusão. Quando ele diz que não deveria estar aqui, sentimos em sua voz o desespero de estar vivo, o desespero que ele sempre sentiu. Logo no segundo episódio, ao descrever sua ideia da natureza, Marty lhe pergunta: “Por que você não se mata, então?”. Ao que Rust responde simplesmente que “não tem a natureza dos suicidas”. Ele está preso aqui. Em Carcosa.


Nota: A estranha alucinação que ele sofre pouco antes de ser atingido por Errol parece algo saído de um filme de Guilhermo delToro. É como um buraco negro que se abre no céu. Mas dá para notar que esta estranha fenda engole estrelas igualmente negras.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Gente séria e... bom, nem tão séria.

É uma constante neste nosso mercadinho de literatura fantástica: escritores que pagam caro para publicar e agentes literários que prometem lançá-los mediante um módico pagamento.Quero falar um pouco disso.
Sim, é verdade que só posso falar do que funciona ou funcionou comigo, então não espere qualquer regra; são apenas meus dois centavos. Não pretendo, por enquanto, pagar para publicar um livro - há uma exceção, da qual espero poder falar em um futuro próximo. Espero dedicar-me com mais afinco ao trabalho de escrever e divulgar minhas obras. Não tenho talento, formação, experiência nem prática para ser editor. Nem de mim mesmo. É um posicionamento pessoal: não participo de coletâneas que exigem pagamento por parte do autor. Não tenho nada contra quem acha que isso seja uma boa ideia. Certamente, há bons trabalhos e coisas vergonhosas neste formato.
É este o meu ponto.
Sejamos sinceros, caros colegas escritores iniciantes, como eu: não é nada difícil identificar quem é sério e quem não é. Uma pesquisa rápida no Google, reler o e-mail daquele suposto agente literário cheio de erros grosseiros de português, procurar os livros publicados pela editora, a receptividade dos próprios escritores aos títulos editados por esta ou aquela casa, e assim por diante. Faça um favor a si mesmo, a suas obras, ao mercado e a todos nós: entre no Twitter e no Facebook e acompanhe o trabalho das pessoas e editoras que você acredita poderem ajudá-lo com a sua obra. Garanto que, em pouco tempo de pesquisa, os sérios se destacarão.
Além disso, se serve de alerta: não existem agentes literários de editoras, não importa o quão sedutor pareça aquele e-mail bisonho que alguns recebem de tempos em tempos. Sabe o que existe de bom? Bons leitores críticos, editores e escritores. Gente boa disposta a ajudar, com profissionalismo e cuidado. E, ao contrário daqueles supostos agentes, eles pedem de você apenas uma coisa (ok, além de pagar pelos seus serviços, no caso do leitor crítico): trabalho. Nada vai acontecer sem o seu trabalho - e uma boa dose de paciência e humildade, mas isso fica para outro post - e disposição para aprender e  reescrever.
Cada escritor tem sua trajetória, e ela é única. A auto-publicação pode funcionar para você e para mim também, assim como a carreira tradicional em editoras. Há pessoas sérias trabalhando tanto em um formato quanto no outro. O problema não é este, no final das contas: o problema é que já passou da hora de valorizar naturalmente os bons profissionais e deixar os demais para trás.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Selecionados para Lendas Urbanas, da Llyr! Sou um deles!

É, eu sei que este post está mais do que atrasado, mas vale o registro: Fiquei muito feliz com o anúncio dos selecionados para a coletânea sobre Lendas Urbanas, da Llyr Editorial.
Os autores a seguir sairão nas versões impressas e em e-book:

Bruno Anselmi Matangrano – O beco dos aflitos
Carlos Eduardo Von Doellinger Manhães – Bandeira 2
Chico Pascoal – Loira
George Amaral – Zambiapunga
Gian Danton – Bom garoto
Paulo F. – O caso Rita
Ricardo Herdy – Fruto Santo proibido
Sid Castro – O beco dos inocentes
Suzy M. Hekamiah – O diário da ilha
Vitor Vitali – Ruído Fantasma
Vivi Maurey – Tudo breu
Zé Wellington – O mestre dos brinquedos

Já estes aqui (oi?) sairão exclusivamente em e-book:

Ana Lúcia Merege – Pobres Bichinhos
Caio Sinned – A passageira
Lucas Rocha – O homem invisível é dono dos teus olhos
Marcel Breton – Abissal
Marcus Achilles – O Velho do Saco
Pablo Amaral Rebello – A casa das almas perdidas
Vinicius Lisboa – Vem, pequenino

Parabéns a todos os selecionados!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Como assim "escritores de contos não são importantes"?


Momento WTF? da semana: No post The World Says: Short Stories Writers Are Crap, Silvia Moreno-Garcia conta a saga da página do escritor W.H. Pugmire na Wikipedia, que foi marcada para exclusão. Silvia descobriu, entre as justificativas para o expurgo, que Pugmire teria publicado apenas contos e poemas em revistas e antologias de pequenas editoras, em geral voltadas aos fãs de Lovecraft.

Parece-me que esta visão é um tanto comum no público geral. "Escritor" é o sujeito que escreveu um ou mais romances. Para parte do público, contos não chegam sequer a uma etapa intermediária antes do grande romance (e poesia, bem, é algo alienígena que quase ninguém lê). O desinteresse do público por contos é tão grande que já li, mais de uma vez, que os editores, depois do boom de contistas e cronistas brasileiros na segunda metade do século XX, têm fugido deles. E, sim, estou falando de literatura mainstream.

No mundinho da literatura fantástica brasileira, as coletâneas/antologias parecem suprir a ausência de periódicos dedicados aos gêneros e servem, assim, como veículos para a divulgação de novos autores, que vão ganhando desenvoltura ao lado de nomes consagrados (claro que não preciso dizer que falo dos trabalhos e editoras sérias). Não tenho como falar sobre as vendas destas edições, mas, considerando a sua presença no cenário da litfan brazuca, parece não fazer muito sentido pensar nos contos como uma forma "menor" de literatura, já que as antologias continuam a pipocar.

Talvez o maior fantasma esteja mesmo na cabeça dos escritores. A aparente fome inesgotável do mercado por trilogias e sagas extensas de fantasia tem lá sua parte nesta ideia besta. Quanto a isso, só posso falar de minha experiência pessoal, ou seja, o que funciona para mim pode muito bem não funcionar para ninguém mais. Não pretendo escrever agora nenhuma série de livros com dezenas de personagens e situações por uma razão muito simples: é um esforço que demanda o domínio de técnicas que ainda estou amadurecendo. Eu tenho algumas ideias para um projeto desta envergadura, mas no momento, dedico-me aos contos e a um romance ("volume único"), que já me dão trabalho suficiente. Não faço nada disso pensando na possível aceitação do tal mercado, mas como fruto de sinceridade comigo mesmo: Sinto-me mais a vontade para escrever assim e pronto. Encaro os contos como obras que precisam de tanta ou mais dedicação quanto um romance, cada um com seu potencial e limitações. E também os vejo como um campo de experimentação, para exercitar todas as partes de uma história: construção de mundo, personagens, diálogo,  etc. Uma coisa não exclui a outra. Na verdade, quanto mais eu escrevo, mais me sinto a vontade tanto para contar histórias mais enxutas quanto mais longas - e, verdade seja dita, meus contos andam crescendo...

Já aconteceu comigo exatamente o que Silvia relata em seu blog: ao dizer que publiquei contos, a pessoa que perguntou perde o interesse (e quando descobre que é literatura fantástica então...). Não, não me incomodo. Sei onde quero chegar e gosto muito do que estou fazendo. Acredito, basicamente, em dedicação e trabalho árduo, em qualquer gênero e formato. E, se você é, assim como eu, um escritor iniciante que escreve contos, não deveria se preocupar com nada disso. Continue a nadar, diria a Dolly.

Quanto a leitores que realmente acreditam na bobagem dos formatos "inferiores", nunca leram Anton Tchekhov, Dalton Trevisan ou Asimov. Se eu estivesse entre eles, iria correndo experimentar estes e mutos outros grandes autores de pequenas narrativas.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Segurança para Escritores

O editor do Caetano Veloso, quando soube que ele não fazia backups do caudaloso Verdade Tropical enquanto o escrevia no notebook no meio de uma turnê (chances homéricas de algo dar errado), deve ter ficado muito feliz. Inspirado por este post do Luan Felipe no Facebook, decidi resumir aqui o que tenho feito como medidas de segurança para escrever no meu computador (uso Windows):

  • Backup dos textos: Se puder, tenha um HD externo. Arquivos de texto ocupam pouco espaço, então um pendrive também cumpre muito bem o papel. Aprenda a usar aplicativos de backup e programe-os para executar as cópias dos documentos periodicamente. Existem boas opções gratuitas. Eu já usei o EaseUs (download da versão gratuita na CNET) e o Cobian Backup.
  • Mais backup: Uso o Google Drive. Quem já perdeu tudo o que tinha em um HD sabe que não dá para confiar cegamente neles e menos ainda em pendrives, por isso passei a salvar meus textos diretamente na pasta do Google Drive, garantindo sincronização imediata com a web. O que nos leva a outra prática.
  • Salvando documentos: Configurei o Word para salvar meus documentos automaticamente, a cada 10 minutos. Felizmente, tanto o Word quanto o LibreOffice  ou Apache Open Office podem recuperar o arquivo perdido recentemente, no caso de acontecer algo de errado enquanto se digita.
  • Anotando ideias: Ao contrário do Luan, ainda não uso o Evernote, mas deveria. Por enquanto, uso o Google Drive/Docs mesmo para anotar rapidamente uma ideia. 
  • Registrando... : Uma última prática, que nada tem a ver com tecnologia: registrar as obras na Biblioteca Nacional. É simples, não muito rápido (no meu caso, claro: não há escritório em Belo Horizonte) e não é caro também. Muitas editoras só vão aceitar seu original se ele tiver sido registrado.
Bom, é só isso. Se vier a adotar outra prática, escrevo sobre ela. Quem sabe, quando adotar o Evernote.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Lançamento de Caçadores de Vampiros, da Editora Buriti

Já faz algum tempo que a coletânea Caçadores de Vampiros, da editora mineira (minha terra!) Buriti saiu. Depois da divulgação dos selecionados (eu estou entre eles) e da bela capa, agora o livro encontra-se à venda no site da editora e na Amazon.



Com prefácio exclusivo de Dacre Stoker, sobrinho-bisneto de Bram Stoker, a coletânea conta com os autores Adriano Siqueira, Alicia Azevedo, Allana Dilene, Carolina Contini, Georgette Silen, Marcel Breton (oi?) e Violet Fayard.
Além disso, a Buriti deu sequência a série "Caçadores..." com uma nova antologia aberta para submissão de contos, dedicados às bruxas, e outra, sobre mundos fantásticos. Mais sobre elas no post sobre as antologias com submissões abertas, em breve.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Clube dos Leitores de Ficção Científica do Brasil entrega o Prêmio Argos de Literatura Fantástica

Por jornalismo CLFC

O retorno do Prêmio Argos de Literatura Fantástica foi considerado um dos pontos altos do VI Fantasticon – Simpósio de Literatura Fantástica. A cerimônia aconteceu no domingo, dia 23, às 13h, no auditório da Biblioteca Viriato Corrêa, em Vila Mariana, SP. O prêmio Argos 2012 é feito por votação direta dos sócios do Clube dos Leitores de Ficção Científica do Brasil e visa eleger os melhores romances e contos do gênero fantástico (ficção científica, fantasia e terror) publicados em língua portuguesa no ano de 2011.

O escritor Gerson Lodi-Ribeiro foi o vencedor da principal categoria, Melhor Romance, com o livro A Guardiã da Memória.  Gerson também recebeu um prêmio especial pelo conjunto da obra e pelas contribuições à ficção científica nacional, dentre as quais, a própria criação do Argos no final do século passado.

Os outros indicados na categoria Romance, ou História Longa, foram: Eduardo Spohr com Filhos do Éden – Herdeiros de Atlântida; Flávio Carneiro com A Ilha; Luiz Bras com Sonho, Sombras e Super-heróis e Simone Saueressig com B9.
O médico mineiro, Flávio Medeiros Jr, levou o prêmio de melhor história curta com o conto O Pendão da Esperança, publicado na coletânea Space Opera. Os outros concorrentes eram: Alliah com Morgana Memphis Contra a Irmandade Gravibranâmica; Cirilo S. Lemos com O Auto do Extermínio; Clinton Davisson Fialho com A Esfera Dourada e Marcelo Jacinto Ribeiro  com Seu Momento de Glória. Os livros premiados foram publicados pela editora Draco.

A festa foi feita com muito humor e suspense com clara alusão ao prêmio Oscar norte-americano, com direito a um pequeno teatro de cosplayers que terminou com a entrada triunfal do presidente do CLFC, Clinton Davisson, que foi o apresentador da cerimônia. De acordo com a tradutora Mary Farrah, que coordenou a apresentação teatral, o grupo de atores é composto por membros de diversos fãs clubes de Star Wars. “Combinamos com a diretoria do CLFC que essa apresentação se daria gratuitamente, em troca apenas de uma doação do Clube para a instituição Casa da Sopa de Nova Iguaçu. Graças aos sócios, algumas crianças carentes terão um cardápio mais diversificado durante, pelo menos, mais três meses”, falou.

O grande vencedor da noite, Gerson Lodi-Ribeiro, elogiou a festa e se disse emocionado tanto com as premiações que recebeu, quanto com as ações de caráter social que o CLFC vem adotando na nova gestão. “Ficção científica engajada, que serve não apenas para inspirar o futuro com que muitos de nós sonhamos, mas para cuidar e ajudar a consertar o presente. De arrepiar os pelos!”, afirmou.

O prêmio chegou a ser considerado o mais importante do gênero na virada do século quando teve quatro edições, 1999, 2000, 2001 e 2003. Segundo o presidente do Clube dos Leitores de Ficção Científica do Brasil – CLFC, Clinton Davisson, o retorno do Argos faz parte de um plano de metas que visa a retomada definitiva do Clube fundado em 1985 e que chegou a ser reconhecido pela Science Fiction and Fantasy Writers of America – SFWA como entidade representativa no Brasil. “Com o advento da internet, muitas das funções do CLFC foram perdendo a razão de ser. Quando assumi, em outubro do ano passado, a proposta era repensar a utilidade do Clube. Partimos primeiro para retomar tudo o que ele fazia antes, só que adaptado à nova realidade do século XXI; como o Somnium, o antigo fanzine em papel, que foi  adaptado ao formato pdf para ser distribuído on-line; a criação da Biblioteca Nacional de Ficção Científica que estava prevista no estatuto; a volta do site oficial e, agora, o retorno do Prêmio Argos de Literatura Fantástica. Além disso, estamos criando coisas novas, como parceria com editoras para conseguir descontos para os sócios, sorteio de ingressos de cinema e, principalmente, ações sociais voltadas ao incentivo à leitura para crianças, cursos para jovens escritores e a formação de novos leitores”, explica Clinton.

Fonte: Somnium

sábado, 26 de maio de 2012

Cheirinho de carro novo

Foi o que disse (ou tuitou) o astronauta Don Pettit, assim que entrou na cápsula Dragon, atracada à estação espacial ISS. Não deixa de ser uma imagem simples de um momento interessantíssimo da exploração espacial. Parece que estamos presenciando o primeiro rascunho daquela velha ideia da FC norte-americana em especial, que encara o espaço como a última fronteira, uma versão mais sofisticada do velho oeste (leia o ótimo artigo de Roberto de Souza Causo n'O Bule: Me Dá Uma Para Viver,que aborda esse e outros assuntos), desbravado pela iniciativa privada. O anúncio também recente da Planetary Resources e sua ambição de minerar asteroides reforça ainda mais esta impressão e já fez muita gente imaginar um futuro com naves como a Nostromo (de preferência, sem passageiros extras) flutuando por aí.
E, claro, há quem recorra ao discurso óbvio da ineficiência e natureza paquidérmica do estado frente a agilidade e necessidade essencial da iniciativa privada em fazer mais rápido e mais barato. Não é tão simples assim, como mostra Carlos Orsi no artigo O voo do Dragão, mas nem por isso é menos empolgante, claro. O sucesso da SpaceX certamente atrairá competidores, ávidos por milionários contratos com estados e outras empresas privadas. É bastante provável que, nas próximas décadas, a corrida espacial (ao menos aquela envolvida com o espaço próximo a Terra) seja protagonizada por estas empresas. E talvez, assim, a NASA possa se dedicar a suas pesquisas científicas com sondas e telescópios cada vez mais avançados, que custam bem menos do que projetar e lançar veículos de transporte de carga e astronautas.
Aliás, agora todos estão a espera do próximo passo: levar e trazer astronautas em uma destas cápsulas privadas.

terça-feira, 22 de maio de 2012

O Somnium está de volta

O CLFC colocou um novo número do periódico Somnium (o de número 102) on-line, disponível para download aqui. Baixei, ainda não li, mas já posso dizer que ficou fantástico, com um projeto gráfico muito bonito e de bom gosto. É muito bom ver o Somnium voltando ao formato de revista e chamando entre os fãs  brasileiros de literatura fantástica.
Parabéns a todos os envolvidos. Copio aqui a lista de agradecimentos postados pelo Paulo Elache, do Podespecular, nos comentários do site: os autores Duda Falcão, Tibor Moricz, Cesar Alcázar, Miguel Carqueija e Álvaro Domingues, os articulistas Lidia Zuin e Clinton Davisson e, em especial, aos dedicados Fabio San Juan, Marcelo Bighetti e Daniel Borba, além do presidente do CLFC, Clinton.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Paraíso Líquido - Últimos exemplares

O escritor Luiz Bras avisou, em seu blog, que a últimas unidades da edição de Paraíso Líquido estão em suas mãos. Quem ainda não leu, tem a oportunidade de entrar em contato diretamente com o autor e pedir um exemplar. Etica e corretamente, como o livro foi editado graças ao patrocínio do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, jamais esteve a venda. Tive a sorte de ser sorteado no blog do Tibor Moricz - devo uma resenha do livro há mais de um ano... - e garanto que é uma das melhores leituras que tive o prazer de ter neste tempo.
Se eu fosse você, pediria logo o seu. Cito o blog do Luiz:
Os últimos trinta exemplares estão aqui, ao meu lado, aguardando os últimos interessados. Se você ainda não tem um Paraíso líquido, basta enviar um envelope selado, no valor de R$ 5,00, para o endereço abaixo, que seu exemplar seguirá imediatamente, lépido e fagueiro, para suas mãos.
Luiz Bras
Rua Dr. Paulo Vieira, 166 apto 72
01257-000 – São Paulo – SP

Selecionados para "Brinquedos... eles matam!": Sou um deles!

A Editora Estronho divulgou o resultado da seleção para a coletânea "Brinquedos... eles matam!" e foi uma grata e feliz surpresa descobrir que o meu conto "Frank" está lá também. A cada dia que passa, fica mais claro que há um mercado leitor brasileiro para literatura fantástica feita por brasileiros. E o trabalho sério e profissional de editoras como a Estronho só confirmam isso.
Os selecionados são:

  • A. Z. Cordenonsi (Henrique e o Arlequim)
  • Alex Mir (Muiraquitã)
  • Daniel de Medeiros Andrade (A boneca que era Mariana)
  • João Manuel da Silva Rogaciano (Memórias de Teddy)
  • Leonardo Araújo Oliveira (O soldado de Mariladruns Verkstrom)
  • Luiz L. Bernstein (Um coelho, e alguém mais)
  • Marcelo Breton (Frank)
  • Norberto Silva (Marionetes)
  • Priscilla Rúbia (A boneca Eduarda)
  • Rodolfo Santos(Majestade e marionete)
  • Telmo Marçal (O Crepúsculo dos brinquedos)
  • Valentina Silva Ferreira (Manu)
  • Verônica Freitas (Uma visita à Casa Damballa)

Parabéns a todos!

sábado, 19 de novembro de 2011

FC do B 2010-2011

Depois de Cursed City, da Editora Estronho, mais uma publicação seleciona um conto que escrevi, o concurso FC do B 2010-2011. O meu conto chama-se Memorial e o livro sai pela Tarja Editorial - que, aliás, já está em pré-venda no site da editora. A novidade desta vez foi o concurso de ilustrações, que premiou o vencedor Carlos Reno com a (bela) capa. Além disso, estão saindo novas edições de colecionador para os panoramas 2006-2007 e 2008-2009.
É recompensador ver as iniciativas do Estronho, FC do B e Tarja, que permitem a novos autores ter seu trabalho publicado com qualidade e  respeito. Fiquei muito feliz e entusiasmado com esta notícia. Assim que tiver mais novidades, posto aqui no blog.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cursed City e Insanas em minhas mãos

Infelizmente, não tive como ir ao lançamento da Cursed City - Onde As Almas Não Têm Valor e Insanas, em São Paulo. Mas, enfim, pude ir ao encontro do Estronhomóvel na Praça do Papa (sou de Belo Horizonte também), conheci a galera que sigo no Twitter: M.D.Amado, Celly Borges e Ana Carolina Silveira. Uma pena que eu estivesse com tanta pressa, pois queria ficar lá e conversar mais - fica para a próxima.
Enfim, sobre os livros... O trabalho da Editora Estronho é sensacional mesmo, eu ainda não havia colocado minhas mãos num livro deles (e sim, prometo que da próxima vez, compro mais...). O acabamento é ótimo e o trabalho gráfico combina impacto e bom gosto - algo sempre difícil - em ambos os títulos. O tiro no Cursed City é a cereja do bolo. Sinceramente, se estes títulos ficassem expostos em grandes livrarias, com certeza chamariam a atenção do público com facilidade. Lamento apenas que, como o próprio Amado disse, BH City não é um território muito favorável a lançamentos em literatura fantástica.
E Cursed City  é meu primeiro trabalho publicado, o conto Sombras. Não poderia estar mais satisfeito e em melhor companhia.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Eu li: Imaginários - Volume 1

Demorei a ler as coletâneas Imaginários da Draco, então começo logo pelo primeiro volume. Antes de mais nada, já digo que é recomendado.

Coleira do Amor, de Gerson Lodi-Ribeiro
Curiosa consequência da quase imortalidade humana: como manter um relacionamento amoroso estável quando o tempo de vida se expande? Boa descrição de futuro, bons personagens (ainda que os diálogos pareçam “técnicos” demais, por vezes) e desfecho trágico e violento.

Eu, a Sogra, de Giulia Moon
Incursão leve e bem-humorada à fantasia na história de uma sogra que é, literalmente, uma bruxa. Narrada pela personagem principal que esbanja simpatia, termina de forma coesa e surpreendente.
Veio... Novamente, de Jorge Luiz Calife
História (bem) convencional sobre contato alienígena, valorizada pelo texto preciso de Calife, que lembra a abordagem de O Caçador, na coletânea As Sereias do Espaço.
A Encruzilhada, de Ana Lúcia Merege
Impressionante capacidade de descrever um mundo de fantasia em um conto curto que dá vontade de continuar lendo indefinidamente. Diálogos e personagens consistentes e cativantes, mas o título entrega parte da trama.
Por Toda a Eternidade, de Carlos Orsi
Um crime espacial que acaba em uma surpresa curiosa e terrível. Com uma pegada mais hard, exige atenção do leitor para acompanhar as idas e vindas da história, especialmente porque é um conto bem curto. 
Twist in My Sobriety, de Flávio Medeiros
Alienígenas e a noite de uma metrópole brasileira do futuro. A narrativa, quase toda sob o ponto de vista do protagonista, flui muito bem e se encaixa na revelação final. A descrição dos aliens é particularmente assustadora, apesar de algum excesso de explicações.

Um Toque do Real: Óleo Sobre Tela, de Roberto de Sousa Causo
A rigor, quase não é um conto fantástico: Um pintor em crise pessoal se vê imerso em delírios metafóricos sobre sua condição, incluindo monstros e desafios. O uso de expressões que fazem referência a atividade do artista enriquecem a narrativa. 
Alma, de Osíris Reis
Eis um conto de leitura mais complicada, em que uma boa ideia acaba se perdendo nos experimentos do autor. Mesmo em uma segunda leitura, a impressão é de alguma coisa fica para trás. Ainda assim, há ótimas cenas, que transmitem boa dose de tensão.
Contingência, Ou Tô Pouco Ligando, de Martha Argel
Deliciosamente irônico, cruel e engraçado, talvez o conto com mais elementos brasileiros da coletânea. Narrado por um escroque sagaz e inteligente, brinca com a ideia de universos paralelos e as consequências mais absurdas de um pequeno ato - citando O Som do Trovão, de Bradbury.
Tensão Superficial, de Davi M. Gonçalves
A estrutura (e o desfecho) lembra bastante um episódio de Twilight Zone, mas o personagem principal não convence: as frases não parecem ter nascido na mente de um adolescente.
Planeta Incorruptível, de Richard Diegues
Costumo torcer o nariz para misturas de FC e religião, mas este conto tem dois trunfos: o ponto de vista dos alienígenas que invadiram a Terra (e o conflito entre suas crenças e o cristianismo terrestre) e a conclusão, irônica.     
Em resumo: Uma ótima coletânea, com a necessária variação de estilos, temas e gêneros que fazem o leitor saltar de um universo a outro em poucas páginas. Os meus contos preferidos são, curiosamente, os das escritoras Giulia Moon, Ana Lúcia Merege e Martha Argel. 
Sobre a capa: Já conhecia o trabalho de Roko. Neste volume, a ilustração parece encarnar os 3 gêneros fantásticos citados na capa - FC, fantasia e terror. 
Em breve, minhas impressões sobre o segundo volume.
Imaginários - volume 1, Organização de Tibor Moricz, Eric Novello e Saint-Clair Stockler. São Paulo: Editora Draco, 1.ª Edição, 2009, 126 páginas. Capa de Roko.

terça-feira, 14 de junho de 2011

O som das deadlines chegando (de novo)

Eles pararam em frente ao rio Anghar, que corta as terras do Sul na direção do mar de Draseus. Chegariam mais rapidamente ao porto da Cidade Velha se acompanhassem as margens do rio. Fillias ergeu a cabeça, como se isso o ajudasse a pressentir algo, e olhou para a necromante que o acompanhava, sua mulher. Encararam-se por um instante; em seguida, desceram ao mesmo tempo de seus cavalos. Annia se agachou e tocou o solo com a mão esquerda:
- Você também ouve isso?
- Sim. Serão elas de novo?
Fillias ajudou a necromante a se levantar. Sabiam que precisavam de mais tempo; o caminho mais longo para a Cidade Velha também era o mais tortuoso, atravessava montanhas e vales habitados por gigantes rudes e bandos de licantropos enlouquecidos após o assassinato de seu líder pelo rei.
- As deadlines são piores do que a estrada longe do rio. - Ela disse. - Mesmo eu tenho pouco poder contra elas.
- E minha espada seria completamente inútil.
O cavaleiro olhou para a mochila de couro pendurada no dorso do cavalo. Era preciso entregar aquelas histórias ao senhor dos barcos, Otto Vanderi, antes da terceira lua, e ainda havia páginas a escrever. Para isso contava com a ajuda de Annia, conhecedora das extensas linhagens de famílias das eras esquecidas. Se as deadlines os alcançassem, não teriam receio em devorar cada um dos papiros depois de sujá-los com o sangue dos seus autores. Poucas histórias sobreviveram aos seus ataques; ainda menos homens conseguiram descrever como elas haviam destruído suas obras em meio a rugidos e ao som implacável dos cascos ressoando pela floresta.
O mesmo barulho incessante do qual Annia e Fillias se afastavam agora, abandonando o leito seco do outrora caudaloso Rio das Sombras, e adentrando a Grande Floresta em direção às montanhas, aos gigantes e lobos, mas a salvo dos dentes afiados e olhos atentos das deadlines. Ao menos, temporariamente.
***
É isso mesmo. O som das deadlines volta a incomodar. Segue a lista das próximas coletâneas e chamadas, em ordem cronológica, com links para as mesmas. Boa sorte a todos que se dispuserem a cumpri-las:

22/06 - Bonecos : Medo B
O blog MedoB promove a seleção de contos para um e-book: Histórias de terror envolvendo bonecos.

24/06 - Caçadores de Vampiros : Editora Buriti
A editora Buriti pretende lançar uma série de livros com caçadores de seres sobrenaturais - começando com vampiros.

01/07 - FCdoB
O concurso FCdoB já é tradicional. Este biênio, uma novidade: selecionará ilustrações também.

01/07 - Le Monde Bizarre : Estronho
Quem nunca teve medo do circo e dos segredos abaixo da lona e dentro dos trailers?

15/07 - VII Demônios - Ira : Estronho
O último volume da coleção VII Demônios, dedicado a Ira / Azazel. Última oportunidade para participar!

01/08 - Quando o Saci Encontra os Mestres do Terror : Estronho
O Estronho é hiperativo... Aqui, a ideia é unir o folclore nacional ao terror, homenageando-o e dando-o uma nova perspectiva.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Eu li: Guerra Justa, de Carlos Orsi

Acompanho há algum tempo o blog de Carlos Orsi, seu trabalho como jornalista especializado em divulgação científica e lembro-me de quando assinava Carlos Orsi Martinho, na época da IAM. Guerra Justa é o primeiro romance de sua autoria que leio e dá para notar nitidamente a influência dos assuntos que aborda em seu blog: a influência (ou interferência) das religiões e o impacto da ciência e do progresso científico no mundo atual.

Em resumo: após a queda de um meteoro no mar Mediterrâneo, a humanidade se vê orfã de referências geográfico-religiosas, já que os grandes centros de fé foram destruídos em um único evento. Um homem conquista espaço e influência apresentando-se como um profeta habilidoso, capaz de prever grandes e terríveis acontecimentos, aglutinando em seu culto o que restou das religiões afetadas pela catástrofe. Mas há um grupo de rebeldes que não acredita nesta liderança e pretende derrubá-la, envolvendo duas irmãs gêmeas, a freira Rebecca e a cientista Rafaela, em suas ações.

A leitura de Guerra Justa flui rapidamente, graças a fragmentação da narrativa em capítulos curtos e que variam constantemente de ponto de vista, abordando diferentes personagens, tempos e linhas que acabam se influenciando, em maior ou menor grau. A história ganha ritmo de Techno-thriller e me interessei por ela logo nos primeiros capítulos, ou melhor, pelo destino daquele grupo de rebeldes e em sua estratégia incomum para tentar enganar uma suposta entidade capaz de prever cada passo da história: o uso do acaso. Chega a ser engraçado o modo como até mesmo as roupas usadas pelos membros são escolhidas assim.

Quando li a sinopse, me incomodou a ideia de uma história envolvendo personagens gêmeos, que costumam cair no clichê do bacana e do malvadão. É claro que subestimei a inteligência do autor, que, logo nas primeiras páginas, desfaz completamente a expectativa do leitor de uma forma inusitada e até um tanto cruel. Aliás, como dito, a leitura é veloz e, se há um problema neste romance, é a velocidade em que ideias são interessantes são descritas. O mundo de Guerra Justa é plausível e complexo, envolvendo desde implantes neurais que ajudam as pessoas a distinguir o real do virtual (e que, claro, podem ser invadidos e contaminados por vírus) a estações espaciais e inteligências artificiais. É um roteiro ambicioso, e geograficamente amplo, espremido em uma novela de 150 páginas. Não digo que seria melhor se o livro fosse maior - na verdade, este é um mérito, pois não há gordura - mas acaba exigindo uma segunda leitura, mais atenta ao cenário do que a trama, para ser apreciado totalmente. Não sei também se era intenção do autor aproximar a figura do “profeta” das interpretações contemporâneas que algumas denominações cristãs, especialmente protestantes, fazem do Anticristo descrito na Bíblia - eu não consegui afastar esta comparação de minha mente enquanto lia.

Parabéns a Draco que imprimiu algumas passagens “invertidas” (letras brancas sobre folhas pretas) e demonstra mais uma vez um trabalho editorial exemplar. Há um ou outro errinho bem bobo de digitação (“do” no lugar de “da”, este tipo de coisa), mas não chega a atrapalhar.

Guerra Justa, Carlos Orsi. São Paulo: Editora Draco, 1.ª Edição, junho de 2010, 150 páginas. Capa de Erick Sama.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Degustação: Cursed City

A Editora Estronho disponibilizou, em seu site, uma degustação em PDF da coletânea Cursed City - Onde As Almas Não Têm Valor. São dois contos: O gigante, a curandeira e a lutatora de kung-fu, de Alfer Medeiros, e Just like Jesse James, de Alliah. A ideia é ótima: Muitas vezes, o tema de um livro, as informações de orelhas e quarta capas nos fazem querer lê-lo, mas nada melhor do que uma degustação de verdade.
Aliás, eu participo desta coletânea também :-) .

quarta-feira, 23 de março de 2011

Eu li: A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr

Muitos leitores têm medo do hype. Temem que, após a leitura de uma obra badalada, não a achem tão interessante quanto os amigos, blogs e sites preferidos andaram alardeando. Isso não acontece com A Batalha do Apocalipse; de fato, se a obra de Eduardo Spohr alcançou o status de épico da literatura fantástica nacional, foi especialmente por seus méritos.

A história dos bastidores todo mundo já conhece: Jovem Nerd, livro independente, sucesso de vendas, saiu pela Record, etc. Mesmo quem não leu também já sabe mais ou menos a trama: o último dos anjos renegados, Ablon, é convidado pelo seu inimigo, Lúcifer, para lutar ao seu lado contra seus antigos aliados, liderados pelo arcanjo Gabriel. O mundo caminha rapidamente para a guerra final, e Ablon aos poucos entenderá a complexidade e dimensão do que aguarda não apenas a humanidade, mas o céu e o inferno.

O que mais impressiona em A Batalha do Apocalipse é a coerência do mundo criado por Spohr e a forma como ideias aparentemente díspares de religiões e mitos distintos são interligados. Não há soluções fáceis ou sacadas de última hora, e aceitamos sem problemas um universo habitado tanto por anjos quanto por espíritos de pessoas mortas, antigos deuses quase esquecidos por seus adoradores, minúsculos e delicados seres cuja existência pode ser varrida por um sopro ou demônios cruéis e disformes. O leitor é, na maior parte do tempo, conduzido pelo olhar de Ablon, que, a despeito de ter ocupado um lugar relativamente privilegiado no plano espiritual, desconhece uma parte substancial do universo: O personagem se surpreende com descobertas fascinantes, algumas belíssimas e outras, terríveis.

O que nos leva ao desenvolvimento dos cenários, incrivelmente variados, pois cobrem momentos distantes entre si no tempo e lugares separados por oceanos e continentes inteiros.  Em especial, a caracterização da antiga Babilônia, das cidades da China e da atual Jerusalém me impressionaram. Todos eles parecem críveis e reais. O mesmo vale para os mundos imaginários; é possível compreender a maravilhosa aparência da Atlântida e decrepitude do inferno em poucos parágrafos.

Os personagens são interessantes e bem desenvolvidos. Ainda que Ablon corresponda a um herói arquetípico, alguns de seus atos resultam em erros, equívocos e decisões erradas – os anjos não são infalíveis, afinal. A feiticeira Shamira aparece como o contraponto humano de uma história milenar e é a personagem que permite ao leitor não se perder na amplitude da trama. Nimrod, Lúcifer, Gabriel, Miguel, Orion, Amael, Flor do Leste são fascinantes em suas motivações, erros, redenções, mesmo aqueles movidos por um único desejo (como a Estrela da Manhã) têm seus momentos de dúvida. A exceção é Apollyon, espécie de nêmesis de Ablon, que parece cumprir apenas esta função – embora sua natureza seja perfeitamente explicada ao final.

É um romance épico; logo, batalhas e lutas acontecem constantemente. O pulso do escritor é firme, os movimentos dos oponentes são descritos com clareza e a narrativa destes eventos é sempre bem conduzida – o que vale para a longa batalha final. Muita gente estabeleceu paralelos entre estas lutas e o anime Cavaleiros do Zodíaco. Confesso que nunca gostei do desenho (se eu escrevesse isso no Twitter, haveria um #prontofalei aqui) e não o tenho como referência. Senti, claro, um quê de anime nas armaduras, golpes e estratégias dos anjos, mas nada tão certeiro. Felizmente, no livro ninguém grita o nome de seus golpes antes de descer o sarrafo no inimigo.

Talvez o flashback que interrompe um momento crucial na trama seja longo demais, mas a história narrada nela é tão interessante que dá até para se esquecer deste probleminha. Imagino o trabalho louco que o autor teve para encaixar tanta informação sobre o passado dos personagens em flashbacks posicionados de tal forma que fossem úteis, interessantes e não parecessem forçados, como se estivessem ali apenas para explicar algo importante no capítulo seguinte. Embora estas interrupções na trama não tenham me incomodado, acredito que poderiam ter sido mais trabalhadas. O mesmo acontece com algumas informações-chave que o autor acaba repetindo em excesso. Entendo que um romance extenso como ABdA (para os íntimos, claro) se beneficie destas repetições, mas algumas ficaram próximas demais e tornaram-se óbvias – por exemplo, a que estabelece a relação entre a espada e o seu portador, nos primeiros capítulos. Em outros momentos, talvez fosse mais interessante deixar uma ou outra conclusão para o leitor. Cito o reencontro (spoiler adiante!) com o rei Nimrod. Não era realmente necessário explicitar de quem se tratava - eu, pelo menos, já o havia identificado. Aliás, este trecho é particularmente tocante, como outros no livro. Fiquei fascinado pela economia e precisão na descrição da beleza e sabedoria dos ofanins, da altivez de Gabriel e da humanidade ao mesmo tempo simples e grandiosa de Flor do Leste. Em outros momentos, Spohr abusa um pouco dos adjetivos, em especial nas descrições de lutas e habilidades dos anjos. Mas não é nada que chegue a atrapalhar.

O final é ambicioso e recheado de revelações impactantes. Mais uma vez, a solidez do universo de ABdA serve de sustentação a estas revelações, que se encaixam e passam a fazer ainda mais sentido quando o leitor as relaciona a detalhes narrados anteriormente. É neste momento que um escritor novato, como eu, tem de reconhecer a importância da pesquisa (o mesmo ocorre em outro excelente livro, O Centésimo em Roma de Max Mallmann) e o trabalho de artesão necessário para fazer com que ela se “dilua” naturalmente na obra, ajudando a fazer de um mundo inventado um cenário crível, palpável.

Enfim, A Batalha do Apocalipse merece o lugar de destaque que tem ocupado na literatura fantástica nacional. É um livro que li com prazer e interesse genuíno sobre o destino dos personagens – chegando mesmo a temer por alguns deles.

terça-feira, 8 de março de 2011

Nas Montanhas da Loucura: cinema é para crianças, TV é para adultos?

A notícia sobre o possível cancelamento da adaptação de Nas Montanhas da Loucura, de H. P. Lovecraft, pelo diretor Guihermo delToro, me fez pensar em algumas coisas. A alegada razão para o cancelamento seria o medo da Universal em investir um orçamento bastante generoso (150 milhões de dólares) em um projeto que receberia censura R, mesmo contando com Tom Cruise no elenco e a tecnologia 3D desenvolvida por James Cameron para Avatar. Em Hollywood, um filme só é considerado um sucesso se atinge bilheteria superior a três vezes seu custo de produção. Logo, Nas Montanhas da Loucura só daria lucro se chegasse a 450 milhões de dólares de bilheteria.
Em resumo: adultos que gostam de ficção científica e fantasia podem esperar sentados por um filme dirigido a eles. Ao menos, uma produção que dependa de efeitos especiais massivos. Nada contra filmes menores e mais arriscados (Moon, por exemplo), claro, mas quem disse que adultos não vão ao cinema para ver enredos fantásticos também? Eu me arrisco a dizer que o público entre 25 e 35 anos seria suficiente para justificar a produção de um filme como este.  Mas, e especialmente após a crise dos últimos anos, Hollywood quer bilheterias astronômicas e aposta na supremacia dos muito jovens. Por isso mesmo, o PG-13 se tornou um objetivo a ser atingido por muitos filmes – inclusive por alguns que não deveriam se adequar a este padrão. Os produtores que se defendem, citado bilheterias decepcionantes como as de O Lobisomem, se esquecem convenientemente da qualidade dos exemplos escolhidos.
A saída para histórias fantásticas para adultos tem sido a TV. Parece haver menos riscos e um custo de produção bem menor, além do barateamento dos recursos necessários para se fazer boa FC & F na televisão. Também é verdade que a venda de espaços publicitários nos intervalos é uma grande fonte de renda, algo que não é possível de se fazer no cinema – melhor nem imaginar um produtor querendo colocar Coca-Cola numa taverna frequentada por anões e guerreiros.
Produções como True Blood na HBO e The Walking Dead na Fox provam que a combinação tem dado certo. Não é à toa que a TV esteja atraindo cada vez mais atores e diretores do primeiro escalão.  Livres das exigências de um mercado cinematográfico que se dirige com volúpia apenas aos muito jovens, os roteiristas para a TV têm se arriscado mais e colhido resultados bem interessantes. Talvez a maior aposta (e maior prova disso) seja A Guerra dos Tronos, a nova série baseada nos livros de George R. R. Martin produzida pela mesma HBO que levou a sexualidade dos vampiros (e outras criaturas) de Charlene Harris para as telas. Aguardamos ansiosamente.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Suspensão de descrença

Conheço muita, muita gente mesmo que tem absoluta aversão a qualquer obra fantástica, seja no cinema ou na literatura. Eu acho bastante estranho isso, já que não tenho aversão a gêneros específicos - a exceção do "filme-família com bichos falantes feitos com CGI vagabunda" e do "filme-de-adolescente cantor que vai provar seu valor em Los Angeles". Sinceramente, acredito que é possível escrever bons livros e bons roteiros em qualquer cenário e gênero. Há sempre gente talentosa em qualquer, digamos, nicho narrativo. Mas, parafraseando o Inagaki, tergiverso. Voltemos.
Há quem prefira o mainstream; ou a literatura do cotidiano, claro. Mas tenho contato constante com pessoas que odeiam fantasia e ficção científica porque não as entendem. Ou melhor, não entendem o universo criado nestas obras; são incapazes de imaginar histórias que não estejam firmemente ancoradas na realidade. Eu poderia ser um tanto preconceituoso e dizer que elas sofrem de déficit de supressão de descrença.
A supressão da descrença refere-se, usando o conceitinho lá da Wikipedia ,"à vontade de um leitor ou espectador, de aceitar como verdadeiras as premissas de um trabalho de ficção, mesmo que elas sejam fantásticas, impossíveis ou contraditórias." O melhor exemplo na literatura mainstream é o realismo fantástico latino-americano (aliás, por muito tempo, o gênero foi o sinônimo da América Latina literária em boa parte do mundo). No Brasil, o representante mais lembrado é Murilo Rubião e seu livro O Pirotécnico Zacarias. São, geralmente, histórias em que eventos ou elementos fantásticos atravessam o cenário da narrativa que é, em sua maioria, realista.
Já a FC&F exige muito mais do leitor (e por isso mesmo, para atingir um patamar eficaz de supressão de descrença no leitor, também exige muito do escritor); muitas vezes, apresenta uma "gramática" própria, e pressupõe um certo conhecimento de seus conceitos, clichês e amplitude. Não agrada a todos, claro. Só impressiona o grau de rejeição quase patológica que algumas pessoas sofrem em relação a FC&F. Sem querer ser machista, destas pessoas que conheço, a maioria são mulheres e, dentre elas, 99% acompanham telenovelas.
Pois bem: confesso aqui sofrer do mesmo problema em relação às novelas. Não consigo ativar meus neurônios de supressão de descrença para aceitar que um moleque de vinte anos possa assumir uma empresa multinacional após descobrir que é o filho perdido de um grande industrial, ou que dois irmãos separados por milhares de quilômetros e dezenas de anos venham a se apaixonar (ok, Luke e Leia, essa é para vocês também), ou ainda que todos os conflitos desenvolvidos ao longo de meses se resolvam em mais ou menos uma hora e meia de capítulo final, culminando no casamento dos mocinhos e na punição exemplar dos vilões.
Enfim, cada um tem seus limites de descrença.